
FLOW: O trabalho do ator, a neurociência, a expansão de consciência. O Método Lupa.
Comecei minha carreira artística como bailarina e a dança me levou para o teatro. O teatro me abriu um mundo de possibilidades, entendi que a criatividade era algo que estava presente na minha vida desde sempre. Que fascínio o mundo que o teatro me apresentou. Como eu dançava logo comecei a fazer as coreografias das peças, o que me levou para a direção de movimento e em seguida para a preparação corporal. Após 2 anos com a companhia de teatro nós do morro e muitos laboratórios e práticas comecei a teorizar o Método Lupa. O método nasceu de forma muito intuitiva a partir do meu próprio processo de criação de personagens nos espetáculos em que atuei e também de todos os workshops que ministrei nas ONGS em que trabalhei. Como atriz, sempre tive o hábito de escrever todo o subtexto da personagem, e também de criar muitas e muitas particularidades que me faziam acessar aquele estado da personagem, e não o meu estado natural. O Lupa nasceu de um processo prático e começou a ser teorizado depois, se tornando uma forma saudável de trabalhar. O ator/atriz vai na loucura da personagem e depois retorna para a sua própria vida. Conheço histórias de atores/atrizes que abalaram suas vidas pessoais por estarem interpretando personagens densos, ou se recordando de coisas desagradáveis pessoais para poder chorar em cena (Uma prática que pode abrir uma enorme ferida emocional a longo prazo).
O Método Lupa é uma forma de trabalhar na qual nossa vida pessoal fica preservada. Emprestamos nosso corpo, nossa voz e nossas emoções para a personagem, mas a nossa história de vida fica preservada. Assim podemos nos sentir livres para criar uma biografia humana da personagem, uma história de vida que é outra, e não nossa. Ao nos despir de nós mesmos, podemos nos abrir para a possibilidade de vivenciar uma outra vida, uma outra história. Claro que o Método Lupa é um mix de todas os cursos e workshops que fiz durante a vida, e também de todos os livros que li, somos sempre um conjunto de experiências vividas e conhecimentos adquiridos. Fui muito inspirada por Meyerhold, Eugênio Barba, e o Teatro-Dança Indiano o Kathakali. (Fiquei 2 meses na Índia e tive a oportunidade de encontrar ecos da minha pesquisa na forma sagrada com que os Indianos se referem ao fazer artístico)
Coleciono momentos incríveis de laboratórios como os atores/atrizes onde ficamos improvisando por algum tempo e depois no final do improviso o ator me diz: “Gente eu não tenho ideia de onde isso veio!” E celebro com felicidade estes feedbacks. Quando não sabemos de onde algo veio, quando nos surpreendemos com o nosso próprio processo criativo, quando no meio de um improviso sentimos que não estamos no controle, mas que algo está sendo feito através de nós, quando nos percebemos como um portal, como um canal por onde novas informações chegam ao mundo… estamos em estado de consciência expandida, estamos em FLOW, estamos em fluxo. Este é o lugar nobre de onde o ator/atriz pode criar. Esta é a proposta do meu trabalho de preparação, DE ONDE SE CRIA? De que estado estamos criando? Meu objetivo é sempre colocar o ator/atriz em estado de consciência expandida, para que assim a partir do seu SELF-TRANSPESSOAL (Conceito criado a partir do trabalho de Abraham Maslow e Stanislav Grof) ele(a) possa começar a acessar a energia da personagem. Se despindo um pouco de si, deixando um pouco a sua própria personalidade de lado, para se entregar a uma outra possibilidade. Yoshi Oida – Diretor de Teatro Japonês que trabalhou com Peter Brook e que escreveu o livro “O ator invisível” costuma dizer que o ator precisa ser como uma moringa vazia e flexível, que vai se adaptar ao líquido (a personagem) que recebe. Também vejo o ator neste lugar de entrega. O Método Lupa que nasceu de uma prática, hoje está bem teorizado e organizado em etapas e ferramentas. Quando entro num processo de trabalho primeiro vou nutrir o ator/atriz, apresentar a ele possibilidades para que ele se entenda, se perceba e saiba um pouco mais sobre si mesmo. Considero o autoconhecimento algo fundamental para o ator, o ator que se conhece pode se permitir viajar sem pudor para este novo continente chamado “Personagem”, pois saberá para onde retornar. E claro que sempre volta diferente depois desta viagem, pois o processo criativo é um processo de expansão de consciência, entramos em fluxo a acessamos novos estados, novos insights. O ator que não se conhece bem, tende a se mixar, a se fusionar com a personagem, sem poder identificar o que lhe pertence, quais as suas crenças, quais os seus valores, o ator que não passa por um processo de tornar-se íntimo da sua própria vida e das suas emoções, pode a partir da personagem disparar sentimentos ou visitar territórios emocionais e não saber lidar muito bem com isso. Por isso o Método Lupa funciona também com a intenção de ser uma rede de segurança para o ator, permitindo que o ator mergulhe neste universo da personagem sem se preocupar, sem ter o pudor de dizer “Mas eu nunca faria isso” sim, ainda bem que você não faria, não é você quem faz, é a personagem, estamos contando uma história. Estas linhas são bem claras no meu trabalho o mergulho num novo universo e a preservação o nosso próprio universo. Obviamente a personagem é uma pessoa, e o encontro com ela irá também nos ensinar muitas coisas. Nenhum ator irá passar ileso por uma personagem, assim como nenhum artista passa ileso pelo seu processo criativo, há sempre muito aprendizado no caminho. Assim como todas as pessoas nos ensinam algo, a personagem também nos ensina. A personagem se move de forma própria, tem uma outra base de valores, e toma decisões muitas vezes diferentes de nós. Entender como esta pessoa funciona é o que nos levará além. Costumo dizer que todo ator que tem o princípio empatia bem atuante, consegue ser uma camaleão e se transformar num outro. Porque é assim que começa, eu me torno curioso por este outro, eu passo a admirá-lo, eu me coloco no lugar dele, até que em algum momento eu possa dar a vida a ele. Eu trabalho muito com a ideia do amor como emoção base que nos leva, que nos conecta ao outro. A personagem é um outro que eu quero conhecer. Num primeiro momento o trabalho acontece na esfera mental, depois ele começa a acontecer na esfera física, depois na esfera vital (energia e emoção) e por fim na esfera Espiritual. O personagem vem e nos transforma e nos faz evoluir como seres humanos.
“Aquele que mergulhar nas profundezas da sua arte, à procura de tesouros invisíveis, trabalha para elevar esta pirâmide espiritual, que alcançará o céu” Wassily Kandinsky
Porque eu comecei este artigo me referindo a neurociência,? Porque eu trabalho com o conceito de rede neural. Sim, juntos no trabalho de preparação eu e o ator/atriz vamos criando as redes neurais da personagem. As conexões que fazem ela ser como é, e agir como age. Assim vamos também construindo juntos a história de vida e as suas motivações. Estas redes neurais serão disparadas em cena na hora da filmagem, gravação ou espetáculo. O ator cria em laboratório comigo toda história de vida para a personagem, e o corpo exerce papel fundamental nesta criação. Porque o corpo ajuda a fixar as novas redes neurais, o corpo ajuda a contar a história para o nosso cérebro, de que eu estou sendo uma outra pessoa. “O cérebro não sabe a diferença entre o que você vive e o que você imagina” Quando imaginamos que algo está acontecendo, as áreas cerebrais que são ativadas são as mesmas áreas cerebrais que se acendem quando estamos de fato realizando tal ato. Ou seja, no processo de preparação o ator ensaia comigo esta nova pessoa, ensaiar comigo este novo estado de ser, ensaia comigo, fortalece as novas redes neurais criadas para a personagem. A personagem não é o ator. O ator não é a personagem. Deixo isso bem claro desde o princípio. É preciso descolar a personagem do ator, para que ele se sinta livre para criar algo de novo, se não o ator vai passar a vida criando personagens baseado no seu próprio repertório de vida. Nada errado com esta escolha. Mas existe nesta proposta do Método Lupa o conceito de “despir-se de si, se entregar e a uma nova possibilidade”.
Trabalho desta forma desde 2002, ano em que retornei de Londres onde fui estudar cinema e teatro físico. São 20 anos da minha vida criando personagens e levando atores/atrizes a novas possibilidades. Trabalho com expansão de consciência porque quando estamos em FLOW a criatividade é infinita, se soubermos trabalhar menos no nosso ego, e mais no nosso self-transpessoal. Posso também dizer que o método Lupa me “salvou” porque ao trabalhar com tantas pessoas, ao criar tantos personagens, fui entendendo muito sobre o ser humano e as suas reais motivações, e isto teve um efeito muito positivo em mim. Me sinto uma outra pessoa hoje, mais humana e com mais empatia do que antes. Se colocar no lugar do outro para dar vida ao outro, faz com que possamos também nos colocar no lugar das pessoas no nosso dia a dia, e isso termina por aprimorar o humano que existe em nós. Entender como somos, de onde viemos, visitar a nossa própria biografia humana, faz com que possamos entender melhor as nossas atitudes e escolhas. Este trabalho de autoconhecimento é um trabalho que vamos fazer para conhecer a personagem. O Método Lupa é terapêutico? Já me fizeram esta pergunta. E certa vez ouvi do meu professor do Mestrado “ Patrícia o que você faz não é mais somente arte, mas é transformação pessoal”. Sim existem efeitos colaterais do método lupa, e fico feliz em poder com o meu trabalho colaborar com a evolução pessoal dos atores/atrizes. Sempre estou olhando a função social do trabalho, como aquele personagem pode inspirar pessoas, ou refletir uma parte da nossa sociedade, ou gerar polêmicas. Muitas vezes os atores ficam autocentrados no que aquele personagem representa para a sua carreira, quais os resultados que serão colhidos com este filme, com esta novela, ou com esta peça. Na verdade esta parte é sempre a menos importante. Porque? Porque nunca saberemos os resultados de uma ação e como ela irá reverberar com o tempo. Mas existe algo que o trabalho nos traz e que devemos honrar sempre. O trabalho nos dignifica, o trabalho nos ensina, o trabalho nos expande. E irá expandir também as pessoas que entrarem em contato com a obra.
Contar histórias é algo que fazemos desde os tempos das cavernas. Contamos histórias para passar um conhecimento adiante, para aprendermos um pouco mais sobre nós mesmos. Esta dimensão da parte humana do trabalho não pode ser perdida, independente de todo entorno que vier com ele como sucesso, fama e reconhecimento. É na essência do trabalho que a magia acontece. Quando vou trabalhar com um ator/atriz vou encontrar a pessoa. Procuro não saber quase nada sobre a pessoa que vou encontrar para que nosso encontro se dê da forma mais verdadeira possível. Isto colabora muito com o trabalho que me proponho a realizar. Meu estilo de vida também alimenta esta escolha. Tenho um estilo de vida bem centrada no meu trabalho/pesquisa e na educação da minha filha. Isto contribui para que meu relacionamento com a vida seja muito real, moro num lugar pequeno (que escolhi para morar), que chamo de “A pequena vila dos grandes afetos” daria o nome de um longa metragem, quem sabe um dia? O lugar onde moro é um convite à diversidade, e eu me relaciono com todas as pessoas e isso é um laboratório constante de vida. Eu amo pessoas, amo entender como elas funcionam, como pensam, porque agem de certa forma. Eu me considero uma detetive da alma humana. Sempre fui. Sempre investiguei meus cantinhos, primeiro em forma de poesia, depois dança, teatro, cinema, tv…e a maternidade que costumo dizer que foi a investigação PHD…
Considero a vida mágica. E o Método Lupa nasceu neste berço mágico da criação. Hoje ele também se desdobra da LAB4 CHANGE, no laboratório para mudança, depois de 20 anos guiando atores na criação de personagens, comecei a guiar pessoas na criação das suas melhores versões… o Coach Artístico se expandiu também no trabalho de Life Coach, não é linda a vida?
Beijos de LUZ”






