
Uma vida que faça sentido
A consciência de que o tempo é um recurso precioso sempre existiu na minha vida. Mas se intensificou aos 28 anos quando meu pai transcendeu para o próximo plano, essa perda me fez pensar sobre a finitude da existência. Hoje, indo para os meus 48 anos, sinto a infinitude da existência, foi uma caminhada até aqui. Mergulhar, vasculhar, habitar o vasto planeta da nossa alma é um processo que pode levar muito tempo e também magicamente segundos, pois o segundo de um insight pode mudar tudo. A consciência do tempo que temos aqui nesta dimensão foi potencializada com a Pandemia mundial de 2020. O contato direto com a morte nos leva a questionar a nossa vida. Quem sou eu? O que eu estou fazendo aqui? Para onde eu estou caminhando? O que eu estou procurando? Curiosamente estas perguntas que sempre estão presentes no meu trabalho de Life Coaching e Mentoria foram perguntas do curta metragem que dirigi em Londres no ano de 2000 quando fui estudar teatro físico e cinema numa das cidades mais multiculturais do mundo. É incrível olhar para a nossa vida e ter a sensação de que tudo faz sentido, de que tudo que vivemos nos trouxe até o lugar em que estamos hoje. Tudo absolutamente tudo o que vivemos nos traz até aqui. Até que pode parecer um “erro”, foi na verdade uma vontade imensa de acertar. Todas as nossas escolhas foram feitas de acordo com o grau de consciência que tínhamos naquele momento. É um trabalho importante o trabalho de se conciliar com o nosso passado e principalmente ter compaixão por nós mesmos em relação a algumas situações em nossa vida. Hoje eu me vejo como um mosaico… cada pedrinha faz tanto sentido… cada pecinha do quebra-cabeças junta coração faz sentido e cria a pessoa que sou hoje. Não me julgo tanto, tenho a generosidade de me olhar no espelho quando o dia começa e dizer “Oi você recebeu um dia novo de presente, que oportunidade incrível de fazer a diferença no mundo”. E isto me motiva e me inspira a começar o dia. Sempre penso na frase “Não existe ninguém no mundo igual a você, este é o seu maior poder” e isto me inspira também a criar uma vida que seja coerente com os meus valores, uma vida que me traduza, uma vida que faça sentido para mim. Há algum tempo que me guio pela bússola interna, isso colaborou com meu processo de ir me aprofundando em quem eu sou e no que estou fazendo aqui neste planeta. Cada pessoa que chega vem com uma missão, e quando descobrimos o nosso dom, o nosso talento, podemos então “servir” a humanidade e fazer a nossa vida fazer a diferença. A pergunta muda, em vez de “O que eu quero da vida?” A pergunta passa a ser “O que a vida quer de mim?” “Como enquanto consciência localizada e parte inteira de um todo maior eu posso colaborar com o movimento de evolução da consciência?” Só posso colaborar a partir do momento que entendo meu papel neste grande teatro da vida, nesta grande dança cósmica, neste lindo Jogo “Lila”, da existência. Quando encontro minha posição no “Time”. Imagine um time de futebol onde cada um tem a sua posição, quando encontro a minha posição no time, estou colaborando com a minha atitude individual para o coletivo da equipe. Porque todos nós somos uma grande equipe, mas não contra um adversário, e sim contra todos os adversários que a vida moderna criou e que nos afasta de nós mesmos. A overdose de informação nos leva à dispersão. A nossa atenção é o que todos os sistemas de algoritmos intencionam ganhar ( Um aprofundamento sobre este tema você pode encontrar no filme “O dilema das redes”). A questão é que a nossa atenção também é o nosso tempo, nosso recurso precioso… e como estamos usando o nosso tempo? Usando um verbo que soa estranho… como estamos experienciando o nosso tempo? Para onde estamos direcionando a nossa atenção? Esta é uma pergunta chave, a pergunta chave é aquela que abre muitas portas, e nos traz vários questionamentos. Para onde estamos direcionando a nossa atenção?
Mentes pequenas falam sobre pessoas
Mentes medianas falam sobre fatos
e Mentes geniais falam sobre ideias
Esse pensamento me acompanha há algum tempo. O que não significa que eu seja sempre uma mente genial. Mas eu busco viver neste lugar mágico e lúdico das ideias e dos projetos que sinto que podem fazer a diferença na vida de alguém e logo no mundo.
Para onde estamos direcionando a nossa atenção? Também é uma pergunta que se desdobra na nossa percepção dos fatos. Quando algo acontece como significamos internamente o que acontece? Sim, porque estamos dando significado aos eventos, e a qualidade da nossa experiência depende da nossa percepção.
Como estamos percebendo o mundo?
Uma informação interessante é que no ato de percepção nós temos 500 milissegundos (Eu explico mais sobre isso no artigo anterior sobre meditação) e estes 500 milissegundos são suficientes para editarmos os estímulos externos, edição? Sim. A pré-consciência é conhecida como uma “sala de edição”, onde o que você percebe recebe em 500 milissegundos um significado pessoal seu, que está relacionado com os seus valores de vida. Agora chegamos no ponto que nos interessa muito. Cada pessoa percebe o mundo da sua forma e tem uma experiência individual, mesmo num evento coletivo. Um exemplo simples é uma aula, cada pessoa vai perceber e relacionar o conhecimento dado com a sua própria vida e criar os seus próprios significados. Outro bom exemplo é um casamento que termina e cada um tem a sua “versão” da história. A relação é a mesma mas a percepção de cada um é única. Isso nos leva a próxima pergunta
“Se a minha percepção do mundo está relacionada aos meus valores, as minhas crenças, então tudo que eu percebo no presente recebe um pouco do meu passado?”
Exatamente isso! No ato da percepção estes 500 milissegundos são suficientes para nós vermos o mundo um pouco mais como nós somos e menos como ele realmente é. Isso significa que “Emolduramos” as nossas percepções com os nossos valores de vida. Estamos sempre atribuindo um significado que é conhecido e familiar para nós. Observe como algumas pessoas estão vivendo algo de novo e sempre comparando com algo já vivido. A pessoa conhece um lugar novo e diz “Nossa este lugar parece muito com…’ é como se a experiência no momento presente estivesse sendo relacionada com a experiência passada. E isso acontece também com os nossos relacionamentos pessoais e profissionais. Por isso qual é o nosso trabalho? Esta é a forma condicionada de viver. Vivemos no condicionamento, mais do mesmo, repetição de padrões. Por isso a criatividade é fundamental (falo mais sobre a criatividade no artigo anterior sobre criatividade) A criatividade é fundamental, pois quando estamos criando não estamos na nossa sala de edição. Não estamos na pré-consciência mas sim na nossa consciência expandida. Um outro estado. Estamos na “Sala de Criação” e nunca estamos sozinhos… estamos sempre na presença da consciência cósmica. Quando estamos criando e estamos em consciência expandida estamos pertinho de Deus. Se você é uma pessoa espiritualista você vai achar interessante esta frase “Estamos pertinho de Deus” Mas se você é uma pessoa cética você vai querer dados científicos. Já existem dados científicos onde as áreas cerebrais foram mapeadas enquanto uma pessoa estava criando. Estar em fluxo é usar o cérebro de forma sincronística. Quando estamos sendo criativos estamos acessando o nosso “EU” transpessoal. O Ego é o condicionamento. O Self-Transpessoal ( seguindo o trabalho de Stanley Groff e Abraham Maslow) é o nosso Eu em consciência expandida. Seria a verdadeira liberdade. Olha que incrível! Como posso criar uma vida que faça sentido para mim se eu não me libertei ainda do condicionamento? Se eu vivo atribuindo significados antigos a experiências novas? Como posso sentir que estou vivendo uma vida plena que me traduz, se eu ainda não sei o que quero dizer? Se eu ainda não sei o que estou fazendo aqui, e como posso contribuir para a evolução da humanidade? Preciso começar por algum lugar para poder desenrolar o novelo de lã.
“Você pode ir bem longe se começar bem perto, e o mais perto é você mesmo” Jiddu krishnamurti
Alguns dos grandes místicos indianos chegaram ao mesmo ponto em que a nova ciência está chegando hoje. Tudo está conectado. Tudo é uma coisa só. Eu e Universo somos conectados. Não existe nada isolado nesta existência.
“Somos um em essência e únicos em experiência” a nossa experiência é pessoal, mas estamos inseridos na consciência da totalidade que está se manifestando e se expressando através de nós. Quando começamos a nos fazer as perguntas chave, quando começamos a olhar para dentro, quando começamos por nós mesmos, estamos contribuindo criativamente para a evolução da totalidade. Cada pessoa encontrada, cada pessoa “desperta” envia uma “Assinatura Eletromagnética” para a existência. (Assinatura eletromagnética pensamento e sentimento alinhados). É como se um sinal fosse enviado dizendo “Descobri o meu propósito, estou consciente” e assim é mais uma luz acesa. Este é o nosso trabalho, olhar para dentro e acender a nossa luz. O interruptor não está fora de nós. Está dentro. Precisamos identificar os nossos condicionamentos, os nossos padrões, o quanto ainda temos de julgamento o que nos causa separação em vez de conexão. Quando conhecemos uma pessoa diferente ficamos tentando encaixar esta pessoa em algum rótulo. O cérebro gosta do que é familiar, a tal zona de conforto. Mas que interessante seria nos relacionarmos com as pessoas sem colocar um rótulo nelas? Será que ouvimos o que uma pessoa nos diz, ou será que ouvimos já emoldurando a informação nos nossos valores? Como podemos sair disso?
O primeiro passo para puxar o novelo de lã é a auto observação. Li um livro inteiro do Krishnamurti à beira do Rio Ganges em Varanasi no ano de 2012. Quando fui à Índia pela primeira vez estudei Teatro e Yoga, e a vida me deu tantos insights! Quando começamos a nos observar começamos a perceber as repetições de padrão, começamos a olhar para o nosso condicionamento. Então podemos começar a nos fazer perguntas mais profundas
“O que me motiva?”
“Qual a minha real intenção com esta atitude?”
“Esta escolha está alinhada com os meus valores de vida?”
“Quais são os meus valores de vida?”
“Os meus valores de vida são baseados em referências externas ou em desejos internos?”
Não existe blindagem. Tudo nos afeta o tempo todo. E tudo influencia a pessoa que somos. Desde pequenos recebemos estímulos, até os 7 anos (Segundo Dr. Bruce Lipton) Estamos fazendo download automático de tudo que recebemos sem nenhum crivo. Ou seja, até os nossos 7 anos de vida recebemos todas as crenças e valores de quem nos criou. E como não tínhamos condição de filtrar, estas informações foram direto para as nossas redes neurais e ficaram ali bem guardadinhas. Este é um ponto importante porque parte do nosso condicionamento vem de um “viver em modo automático”, disparando sempre as mesmas redes neurais (Rede Neural = conceito, crença, valor, memória). Quanto mais uma rede é disparada mais ela se torna fortalecida e maior a tendência dela ser disparada de novo. Então uma porta de entrada do nosso condicionamento “herdado” através da nossa criação é a educação que recebemos até os nossos 7 anos de vida. Não estou dizendo que tudo foi negativo, junto com todo condicionamento herdado vem também a parte positiva claro. Mas isto depende do grau de consciência dos nossos pais. Não havia tanto conhecimento no mundo a respeito da psicologia positiva, da psicologia transpessoal, da neurociência e da nova ciência. Todos estes assuntos fascinantes se intensificaram nos últimos 50 anos. A primeira vez que se ouviu falar de física quântica foi na conferência de Bruxelas em 1927, a primeira vez que se admitiu que a consciência tinha alguma influência sobre a matéria. Estamos falando de 95 anos atrás e de muitos questionamentos e divisões dentro da área acadêmica, Física Clássica e Física Quântica. Hoje um cientista sensacional chamado Nassim Haramein dedica sua vida a uma ciência unificada, e seus artigos publicados são muito respeitados na comunidade científica. Mas olha como é novo tudo isso! Como é algo de novo estudar a nossa consciência, porque nós estamos estudando uma coisa que nós mesmos somos, então é quase uma metalinguagem, uma metacognição. É como fazer um filme sobre o filme que estamos fazendo… mas é isso. Viver e ver-se viver. Ver-se viver… Ver-se Versos… se deixar escrevo um poema…
Então a primeira parte é auto observação e a identificação dos nossos padrões
e depois?
Depois podemos começar a nos questionar se estes nossos valores são nossos, ou são adquiridos pela nossa educação. E podemos fazer uma lista dos nossos valores de vida e perceber aqueles que realmente traduzem a pessoa que somos, e aqueles que não fazem mais sentido.
É como fazer uma limpa no telefone e desinstalar aplicativos que você não quer mais usar. Primeiro você precisa se dar conta dos aplicativos que estão instalados. Depois se perguntar se quer continuar usando esses aplicativos (Lembrando que os aplicativos instalados afetam diretamente a sua percepção do momento presente, com os 500 milissegundos na sala de edição, então todos os valores e crenças que você vai manter irão afetar diretamente a sua percepção e logo a qualidade da sua experiência no seu dia a dia e logo na sua vida como um todo)
Depois de identificar os valores aqueles que quero manter e aqueles que quer desinstalar, eu posso começar um trabalho de me perguntar com toda sinceridade do mundo:
“Como eu gostaria de viver?”
“Como eu gostaria de investir o meu tempo”
“Como eu posso desenhar uma vida que faça sentido para mim?”
“Como eu posso colaborar com a evolução da humanidade”
“Como eu posso colocar o meu propósito de vida a serviço de um bem maior?”
Enquanto você lê este artigo observe o seu corpo. Você está sentindo algo de bom? Você está sentindo uma agitação gostosa? Você está se sentindo motivado?
“Responda a todo chamado que motivar sua alma” Rumi
A partir de agora você tomou a sua “Pílula” de consciência sobre você mesmo. Então não tem mais como voltar ao que era. Só seguir em frente. Costumo dizer no trabalho de Life Coach que quando começamos um processo de transformação pessoal é como se estivéssemos começado a caminhar sobre uma ponte… e só tem como ir para frente, porque cada passo que damos é como se a parte de trás da ponte fosse desaparecendo, a gente ainda consegue ver de onde saímos, mas não estamos mais lá, já estamos enxergando o nosso passado de um outro lugar. E este é o início da nossa revolução.
Após identificar o nosso condicionamento, e perceber os nossos valores, e decidir quais queremos manter, podemos começar a caminhar sobre esta nova ponte…
a ponte que vai deixar o antigo Eu, e que vai nos levar a nossa versão atualizada de nós mesmos. Como atualizar o sistema operacional do nosso celular. Precisamos atualizar o nosso “IOS” Inspiração Oxigênio e Saúde. Ou Intenção Observação e Sentimento. Ou Intuição Olhar e Sensibilidade. Podemos criativamente dar vários significados para esta sigla IOS. O bom humor é sempre bem vindo.
É uma caminhada diária, é um trabalho de auto observação, é um trabalho de percepção, e também um trabalho de conexão entre o corpo físico e os nossos corpos mais sutis. Temos 4 corpos de consciência: O físico, (Sensações/ 5 sentidos ), o vital (Energia Emoção) , o mental (Pensamentos) e o Espiritual. (Intuição/Criatividade)
Uma vida que faça sentido é uma vida onde conseguimos alcançar o alinhamento dos nossos 4 corpos de consciência. Porque estaremos realizando no plano físico a nossa missão espiritual. As nossas ações no nosso dia a dia estarão alinhadas com a nossa missão de vida, a nossa consciência sobre o nosso papel, sobre a posição que ocupamos no time, na dança da existência, irá guiar as nossas escolhas. Assim, nada será em vão. Viveremos com a consciência da Interdependência, da conexão entre os fatos, entre os seres, entre o micro e o macro, uma palavra minha reverbera e afeta… transforma.
Estamos nos afetando mutuamente. Então que sementes queremos deixar no mundo. Que perfume queremos deixar nas pessoas?
“A habilidade de inspirarmos uns aos outros é uma das belezas da existência”
Esta frase está no meu próximo livro. Penso sempre nisso. Sinto sempre isto. Esta vontade de ser inspirada e de ser também uma inspiração. Se somos a soma das 5 pessoas com quem mais convivemos… devemos também buscar conviver com as pessoas que nos inspiram…. devemos também nos alimentar do que nos inspira, isso inclui boa alimentação, convívio com a natureza, bons livros, boas conversas, qualidade de informação, meditação, yoga, criatividade, arte, produção de significado… é preciso desenhar uma vida onde estejamos alinhando e nutrindo os nossos corpos de consciência. E mais que isso, uma vida onde estejamos referenciados na nossa bússola interna, onde estejamos livres para desenhar algo de novo, existem mil maneiras de existir, estamos neste momento único da humanidade no qual ciência e espiritualidade se encontram para que possamos dar um grande salto coletivo onde reconheceremos e honraremos as nossas habilidades, os nossos talentos, os nossos dons…
“Você anda de lugar em lugar procurando o colar de diamantes que já está em seu pescoço” Rumi.
E para finalizar este artigo ….
Vou citar Saramago
“Que os seres humanos são seres nascidos sem asas é o que há de mais belo, nascer sem asas e vê-las crescer”
A verdadeira liberdade é a liberdade de experienciar o presente, sem condicioná-lo ao passado.
“Às vezes eu sonho que estou voando e como é lindo voar “ – Da performance Pandora Project.
Com afeto
Patricia Carvalho-Oliveira



